
Os partidos políticos que participaram das eleições majoritárias no ano passado fizeram diversas pesquisas e montaram suas chapas e campanhas a partir destas pesquisas.
Tive acesso a duas delas e posso testemunhar que ninguém conseguiu interpretar melhor o sentimento, a consciência política coletiva do eleitor em Jacareí, que o PT.
Além de ser o partido mais estruturado, organicamente mais enraizado na sociedade civil e contar com as vantagens de estar no poder municipal, soube montar uma chapa capaz de atender as duas principais demandas da população:
1. mudança, novidade, representada pelo Hamilton e
2. prioridade na saúde, representada pelo seu vice, o Dr. Adel.
A feliz composição da chapa, a estrutura política partidária, e as intervenções “cirúrgicas”, em especial no segundo semestre,da administração municipal no campo da saúde foram capazes de criar no eleitor prespectivas políticas de mudança, credibilidade na priorização da saúde e reverter uma tendência da maioria (75% dos eleitores) no início das avaliações qualitativas, votar na oposição.
Sabedor da relevância que o tema saúde deve ter durante seu mandato, o Prefeito convida e nomeia o médico Dr. Adel como Secretário Municipal de Saúde. Empresta ao setor o peso político simbólico representado pela consagração popular da chapa, a respeitabilidade do profissional, sua liderança no meio e, sobretudo sinaliza por priorizar o setor.
Do ponto de vista eleitoral, um golaço.
Todavia, sem dar explicações plausíveis, razoáveis, o Dr. Adel fica à frente da Secretaria por apenas 45 (quarenta e cinco) dias. Transmite a sensação de que esse tempo foi suficiente para resolver os problemas e que agora, basta um profissional de outra área, um administrador para conduzir a Secretaria.
Passados 45 dias, o Dr. Adel se sente livre ou descomprometido para deixar a Secretaria.
Não sabemos das razões que o levaram a não permanecer á frente da Secretaria. Partindo do pressuposto que 45 dias é pouco e que os aspectos pelos quais apontamos como feliz sua escolha para vice e sua nomeação como secretario permanecem, sua postura nos leva a questionar se, ao se dispor a emprestar seu nome para compor a chapa e dar credibilidade a um discurso de priorização de saúde, tinha o Dr. Adel perfeita noção do que representaria, em termos de perdas pessoais e profissionais, dedicar quatro anos de sua vida ao interesse público.
Como sabido, as Administrações em geral pagam baixa remuneração, para o padrão da iniciativa privada e para o rendimento auferido por profissionais liberais bem sucedidos, e há necessidade de dedicação integral às funções do cargo. Se realmente estava o Dr. Adel disposto a sacrifícios pessoais e profissionais para SERVIR AO POVO.
Esta é a maior virtude do regime republicano. Desde Aristóteles, na Grécia, e Cícero, em Roma, a virtude cívica requerida do homem público é saber que o que deve nortear suas decisões, suas opções, suas ações é colocar o interesse público acima dos pessoais, dos particulares e dos de grupos.
Os autores apontam a incapacidade de fazer passar o bem comum à frente do particular, corrupção dos costumes, como o principal inimigo do regime republicano.
Bobbio a define como forma ideal de Estado fundada sobre a virtude dos cidadãos e sobre o amor pela pátria, pela causa pública, pelo interesse público. Renato Janine Ribeiro (Folha Explica), citando Montesquieu, aponta a virtude cívica, característica da república, como “a capacidade de ceder a um bem superior as vantagens e desejos pessoais, ou de negar a si próprio em favor de algo mais alto.”
Do homem republicano se exige “por o coletivo à frente do individuo, os valores, acima dos interesses e desejos.” Pois bem, emprestar o nome para dar credibilidade a um projeto e sentir-se livre, descomprometido, ao ponto de não continuar a frente da Secretaria de Saúde, por razões as quais não publiciza, é legitimar o questionamento quanto ao seu civismo. Por maiores que sejam as qualificações técnicas do sucessor, perde a saúde de Jacareí o poder simbólico, o peso político, que representava a presença do vice à sua frente, deixa de ter uma liderança da área médica, com sua capacidade de dialogar com o Poder Judiciário, com o Ministério Público, com servidores federais, estaduais e municipais, com os prestadores de serviço e com a sociedade civil organizada e “viva” representada pelo COMUS.
Com a substituição a saúde terá apenas um gerente e não um líder político, que necessita. Enfim, somos responsáveis por nossas decisões, só nos resta desejar: saúde a todos!
Izaias José de Santana, mestre em direito do Estado pela PUC-SP, professor de direito administrativo na UNIVAP, filiado ao PSDB de Jacareí, procurador do município de São Paulo, Secretário-Adjunto de Justiça e Defesa da Cidadania do Governo do Estado, ex-Secretário dos Negócios Jurídicos em Jacareí (1996/1999).