Reprodução e revolução



gestão / prevenção / conservação / manutenção








Histórias e Gente de Valor

etica
Reflexões

15/08/2006 - Reprodução e revolução

Por Heitor Reis

Alterar tamanho da fonte: A+ | a-
Nossa economia, enquanto capitalista, funciona basicamente assim:
1. O capital paga pela infra-estrutura e pelo trabalho para gerar o produto (ou serviço).
2. O trabalhador passa a ser consumidor e adquire o produto, com o valor de seu salário.
3. O salário volta para o produtor e se incorpora ao capital e ao lucro.
4. O capitalista busca mais mão-de-obra no mercado e aumenta sua produção e assim por diante.
Lamentavelmente, os ricos não tem interesse algum em abdicar da mais-valia e fazer uma boa e santa distribuição da metade da riqueza nacional que acumularam, como Jesus Cristo (Lucas 12:33, Atos 2:44 e 45, 4:32 e 345) e Karl Marx profetizaram, coisa que os seguidores de ambos acabam se esquecendo de cumprir:
      "Horrorizai-vos porque queremos abolir a propriedade privada.
      Mas em vossa sociedade a propriedade privada está abolida para nove décimos de seus membros.
      E é precisamente porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós.
      Acusai-nos, portanto, de querer abolir uma forma de propriedade, que só pode existir com a condição de privar de toda propriedade a imensa maioria da sociedade.
      Em resumo, acusai-nos de querer abolir vossa propriedade.
      De fato, é isso que queremos."
      (Manifesto do Partido Comunista - Karl Marx e Friedrich Engels)
A Revolução Russa nos demonstrou como pode ser inútil e instável o esforço destinado a uma mudança violenta e rápida para uma sociedade socialista, mesmo após a morte de milhões de seres humanos. Os estudiosos destes dois honoráveis judeus nos tem assegurado que nenhum dos dois orientou que esta redistribuição da riqueza fosse feita pela força bruta do fratricidio.
Mahatma Gandhi nos demonstrou, na prática, que há métodos mais econômicos, em termos de recursos humanos e materiais, para se fazer uma revolução.
Também defendo que a única e verdadeira revolução possível somente pode ocorrer dentro de mim. Somente após é que posso tentar (eu disse: tentar!) convencer alguém a dela participar, mudando, assim, lentamente, a sociedade, o estado, a forma de governo e o sistema econômico, torcendo para que a força no sentido contrário seja menor que a dos que comigo lutam.
É claro que temos pressa e podemos imaginar algo mais eficaz, então...
Em geral, os revolucionários são muito ansiosos, quando não completamente loucos. Eles não têm tempo, nem paciência para se submeter a um processo democrático, utilizando tal possibilidade apenas para enganar os trouxas, quando não a si mesmos, da mesma forma que os conservadores. Somente temos duas opções básicas, em princípio: uma ditadura da minoria rica sobre a maioria pobre ou uma ditadura dos líderes do proletariado sobre seus próprios liderados, tornando-se, eles próprios, outra elite dominante.
No entanto, vislumbro uma outra, inédita, pelo que é de meu conhecimento: a revolução pela reprodução, ou melhor, a revolução pela não-reprodução.
O capitalista necessita de um ingrediente fundamental para que o ciclo citado acima funcione: o trabalhador, este ser neoescravizado paradoxalmente pelo neoliberalismo, uma das multiformes manifestações do capitalismo de sempre.
Na medida em que os trabalhadores se reproduzirem menos, haverá uma redução da mão-de-obra oferecida no mercado de trabalho e os capitalistas terão de pagar melhores salários para conseguir operários para seus estabelecimentos industriais e comerciais. Lei da oferta e da procura, desta feita, aplicada a favor de si mesmas, por suas tradicionais vítimas...
Boa parte do excedente populacional acaba sendo um transtorno para seus familiares e para a sociedade, entrando no processo de aborto social, policial e criminal, quando não mera massa de manobra ignara, conservadora e facilmente manipulada pela enganosa campanha eleitoral dos legítimos representantes dos ricos.
Em decorrência desta redução populacional, o peso para cuidar dos desempregados, doentes e criminosos, fruto da exclusão, será menor e o Estado terá recursos para promover uma vida mais digna para uma população menor.
É claro que a classe média já reproduz pouco, mas os pobres e miseráveis, que são a maioria, nem tanto. Eles multiplicam a pobreza gerada pela exploração capitalista, gerando mais miséria ainda. Portanto, se a classe média deseja realmente um mundo melhor para si (individualismo e egoísmo) e para os demais (altruísmo, empatia ou amor cristão), deve fazer um mínimo esforço para construção de uma nova sociedade, mais justa e sem pobres, contribuindo para sua redução, aconselhando os demais a minimizar sua reprodução, já que eles não tem condições de criar seus filhos com dignidade, etc.
O problema é que, com isto, seus empregados domésticos também serão beneficiados e custarão mais caro...
A outra opção é a classe média viver trancada em casa, pagando caro por serviços de segurança, ser assaltada freqüentemente na rua, ver seus filhos assassinados por um par de tênis, etc., e deixando este estado de coisas como herança para a próxima geração.
Certamente, qualquer iniciativa nesta área terá excelente retorno, já que as famílias mais carentes não tem filhos conscientemente, por livre e espontânea vontade, mas por falta de conhecimento e recursos que deveriam ser fornecidos pelo Estado, conforme determina a Constituição Federal, em seu artigo 226:
      Capítulo VII
      Da Família, da Criança, do Adolescente e do Idoso
      Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.
      § 7º Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse
      direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas.

Portanto, façamos a revolução pacífica e realmente eficaz, sem contudo abdicarmos das manifestações públicas, demonstrando nossa insatisfação com a ditadura dos ricos sobre os mais pobres através dos movimentos sociais, entidades de classe, etc.
Por que também não pressionar o Estado e os governos para que cumpram seu dever constitucional?
Assim, reduzindo-se a oferta de mão-de-obra no mercado, auferindo melhores salários, o trabalhador terá mais educação e cidadania, ficando livre da escravidão mental a que está sujeito, fruto de sua incapacidade de compreender e criticar os fatos que decidem sua condição econômica e social, sem ser massa de manobra da direita ou da esquerda.
Conseqüentemente, então, iremos caminhando para uma sociedade verdadeiramente democrática e socialista, com um mínimo de custo para os que acreditarem nesta tese.
Lembro-me da Carta de Princípios de um antigo partido fundado por operários e que acabou se tornando o partido dos patrões: "Sem democracia, não há socialismo; sem socialismo, não há democracia." Mas isto é uma outra história...
Por outro lado, enquanto houver excesso populacional além do que a sociedade, o estado, a economia, a família e a natureza pode suportar, estaremos todos pagando caro por nossa omissão neste mister.
Mas há quem discorde, alegando que o planejamento familiar é uma idéia a serviço dos dominadores, etc., etc. ...
Espero que esta polêmica nos ajude a alcançar uma perspectiva mais clara da realidade. Dialeticamente.
 
______________________________________________________________
Heitor Reis, engenheiro civil, é articulista e palestrante da Federação das Associações de Imprensa do Brasil (Fenai/Faibra). www.HeitorReis.fr.fm - www.fenai.org.br - www.reforme.com.br/kitnet - heitor@fr.fm - 12/01/2006, 01:00 h. Carteira de identidade M-5326 SSP-MG, residente à Rua Bolívar, 467 - União - Belo Horizonte - MG - 31.170-670 - Fone (31) 3486 9337 e 9129 2249.
Comente este artigo:
* Nome:
E-mail:
Publicar E-mail:Sim   Nao   
* Comentário:
O que está escrito na imagem ?
 

Política e Responsabilidade Social

Copyright © 2018 CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida. Todos os direitos reservados.
Website desenvolvido com tecnologia Super Modular