Um outro mundo é possível?



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01/03/2009 - Um outro mundo é possível?

Por Heitor Reis

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Teço, abaixo, algumas considerações sobre o texto de Antônio de Faria Lopes, que, lamentavelmente, não percebe a diferença entre governos absolutamente comprometidos com a exploração da classe trabalhadora daqueles que aplicam uma força contrária a um sistema que domina o mundo há milênios. Ele não percebe que em fenômenos sociais de natureza nacional a mudança pacífica é muito lenta e não há como ser diferente.

Quando estamos em um carro à oitenta quilômetros por hora e precisamos voltar na direção oposta, temos de freá-lo e procurar um local seguro para fazermos a conversão no sentido em que íamos. Mas o Brasil ficaria melhor representado por uma carreta enorme daquelas de 120 rodas, sendo ainda mais lento este processo.

[http://massote.pro.br/2009/02/um-outro-mundo-e-possivel-antonio-de-faria-lopes ]
"Os governantes, ditos populares, que estiveram presentes ao encontro (muito aplaudidos, por sinal) são todos coniventes com o “status quo”. Não há no Brasil, Venezuela, Equador, Bolívia e Argentina sinais de mudança do modelo predatório de desenvolvimento. Ao contrário, são partícipes do sistema globalizado e estão submetidos às regras do “mercado” que determina socorro aos banqueiros e aos industriais e despreza o combate à aids na África, como denuncia o grande escritor e economista espanhol José Luis Sampedro. Aqui pagamos de juros aos banqueiros mais de dez vezes o que se gasta no “bolsa família”, tão celebrado programa assistencial."  (Antônio de Faria Lopes)

Seguramente, raros os governantes populares o são o suficiente para promover uma revolução. Jango tinha elevada popularidade quando foi deposto, mas poucos saíram às ruas para defendê-lo, quando do golpe, caso consideremos o percentual da população adulta. São populares simplesmente porque aumentaram o tamanho das migalhas que são atiradas aos mais pobres, diga-se de passagem, no caso do Brasil, 74 % de analfabetos e semi-analfabetos, cujo caráter pende para o macaquear o estrangeiro (Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil). Mesmo muitos destes tais revolucionários e esquerdistas são súditos culturais dos EUA, inclusive adotando termos em inglês, facilmente traduzíveis para nosso idioma. Cujo caráter flutua num caldo cultural, sobre um extrato representado por Macunaíma (um herói sem caráter), Zé Carioca, Lei de Gerson, jeitinho brasileiro, a malandragem em geral, a catimba e outras milongas mais.

Assim, governantes brasileiros dificilmente estarão, um dia, em condições de enfrentar o grande capitalismo nacional e estrangeiro, como faz Chávez, ainda que dentro de suas limitações. Não há organização popular suficiente e, nem em sonho, há alguma perspectiva de que ocorra.
O trabalhador, em sua maioria, está satisfeito com a escravidão e não quer fazer coisa alguma para se libertar.
O Lula bem que poderia ensinar a Constituição Federal ao povo, para que ele aprenda a cobrar seus direitos, mas não quer contrariar a elite que financiou sua campanha. Em retribuição, "nunca, na história deste país", ganharam tanto dinheiro, quanto em seu governo, segundo o próprio Guido Mantega, Ministro da Fazenda. Por outro lado, o mesmo se pode dizer dos mais pobres, ciente de como Lula administra este tema: "O pobre quer pão. O rico, um bilhão."

"A construção do “outro mundo possível” será obra da organização popular e movida pela solidariedade propõem os participantes do fórum. Nada animador num mundo em que o individualismo é estimulado pela propaganda cada vez mais sofisticada e eficiente e no qual as lideranças das organizações populares são cooptadas pelos governos que, por sua vez, nunca são escolhidos sem o “placet” dos mandachuva que não querem mudanças, só lucro (ver antológico artigo de Vittorio Medioli no O Tempo de 8/11/2008). Ou será que a CUT, por exemplo, não é hoje um departamento do governo Lula? Como se vê um círculo vicioso difícil de ser rompido." (Antônio de Faria Lopes)

Concordo que vivemos numa sociedade conservadora, egoísta, consumista, hedonista, escravagista, racista, machista, etc. Nossos melhores quadros se vendem por um carro importado, uma mala de dólares, etc.
Nossos melhores quadros da esquerda, jornalistas, sociólogos, historiadores e geógrafos afirmam, categoricamente, que estamos em uma democracia e que as instituições funcionam plenamente.
Afirmam que houve uma redemocratização do país como se já tivéssemos sido uma democracia alguma vez na vida! Fingem não ver a ditadura do poder econômico que sempre nos dominou, tanto via militares, quanto via civis. Ou pior, se não a enxergarem.
Plutocracia para eles é o governo do cachorro do Mickey do Walt Disney. Cleptocracia, para eles, é só na África.
Corporocracia deve ser o governo do corpo da Luma de Oliveira. Nossos melhores quadros elogiam desbragadamente a Rede Globo, trocam o nome vias públicas para Roberto Marinho e não são capazes de perceber que ela é um dos maiores inimigos do povo brasileiro, como defende Perseu Abramo.

Saramago expressa esta mesma idéia em outras palavras:

“A esquerda atual ‘deixou de ser esquerda’ e tornou-se estúpida’, afirmou ontem o escritor José Saramago, que acusou também os governos de estarem se tornando ‘comissários do poder econômico’. “Antes, gostávamos de dizer que a direita era estúpida, mas hoje em dia não conheço nada mais estúpido que a esquerda", afirmou o octogenário escritor, militante histórico do Partido Comunista português. Fugindo do tema literário, Saramago acabou por dedicar grande parte da sua intervenção aos problemas das democracias (itálico meu) contemporâneas, que na sua opinião não passam de "plutocracias", e apelou à insubmissão da população. "O mundo é dirigido por organismos que não são democráticos, como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio", disse o escritor. Para Saramago, "é hora de protestar, porque se nos deixamos levar pelos poderes que nos governam e não fazemos nada para contestá-los, pode se dizer que merecemos o que temos".  [ http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u304432.shtml

"Nunca esqueço o diálogo que tive, em 1980, com um velho militante espanhol, veterano da guerra civil de 1936, que me disse com a segurança e a tranqüilidade da experiência: “não se conquista o socialismo sem socialistas”. Frase óbvia que, entretanto, não se refere aos filiados ao partido socialista, mas aos que praticam as idéias de justiça e de solidariedade por que acreditam nelas: o exemplo valendo mais que as palavras. Um novo mundo é possível mas, nunca é demais repetir, ele começa dentro de cada um de nós (outra obviedade)." (Antônio de Faria Lopes)

"A única revolução possível é dentro de nós." (Mahatma Gandhi)

Sugiro que leiam outro texto meu, intitulado O Fator Humano, onde filosofo sobre este tema: http://www.heitorreis.fr.fm/fh

A única pessoa que eu tenho mais probabilidade de conseguir mudar, efetivamente, sou eu mesmo. Posso até influenciar outras, dentro de um processo extremamente lento e incerto, ainda que uma coisa não impeça a outra. Considerando o percentual ínfimo da sociedade que está realmente interessado em uma mudança, especialmente em uma revisão de conceitos, quem apostar no fim da história poderá se vangloriar de ter razão ainda por muito tempo. Mas, religiosos marxistas (Benedetto Croce, citado por Antonio Gramsci em Concepção Dialética da História), como quaisquer outro, acreditam em milagres, apesar da absoluta constatação dos fatos dizerem o contrário.

Não quero dizer com isto que devamos desistir da revolução que defendo como devendo ser pacífica, no estilo Mahatma Gandhi. Mas devemos aprender a caminhar com Galeano em busca da utopia, discutindo se jamais a alcançaremos ou não, como ele afirma:

"A utopia está lá no horizonte.
Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.
Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.
Para que serve a utopia?
Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar."
 
Eu acredito que vale a pena lutar contra a correnteza, dar soco em ponta de faca, ser considerado como louco, desprezado pela maioria, sair da manada, fugir da Matrix, etc. e tal. Em minha defesa, convoco George Bernard Show, com o tradicional toque de Millor Fernandes:

"O homem sensato adapta-se ao mundo.
O homem insensato insiste em tentar adaptar o mundo a si.
Sendo assim, qualquer progresso depende dos loucos."


Sonhamos com um outro mundo, onde tenhamos o melhor da cultura dos nossos antepassados indígenas, africanos, orientais e europeus, bem como o melhor da tecnologia moderna, convivendo harmoniosamente, beneficiando a todos. Vale a pena considerar que o tamanho da população deveria ser adequado às possibilidades de nosso momento histórico: possibilidade economia em gerar emprego; possibilidade da natureza reconstituir a poluição produzida; possibilidade das famílias gerarem seres verdadeiramente humanos, no sentido "sapiens", social, cidadão, e não apenas no biológico, econômico e consumidor..

Só vale a pena viver, se for para construir uma realidade compatível ao máximo com nossas utopias!

(*) Heitor Reis é um adolescente mesocentenário ou um centenário meso-adolescente. Engenheiro civil, militante do movimento pela democratização da comunicação e em defesa dos Direitos Humanos, membro do Conselho Consultor da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida (www.cmqv.org) e articulista. Nenhum direito autoral reservado: Esquerdos autorais ("Copyleft"). Contatos:  (31) 3243 6286  - heitorreis@gmail.com - 28/02/2009, 23:00 h 
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